segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cores, sons e memória

Poucas semanas atrás, logo ao florescer da primavera, repeti meus primeiros passos pelas alamedas uspeanas. Tudo estava tão mudado, como se da noite para o dia, houvesse o tempo avançado na velocidade de um corte fílmico em fade. A paisagem de inverno, com seus galhos desfolhados que me receberam com uma estranha melancolia aconchegante, havia ficado muitos frames para trás.

Com a primavera vieram toda sorte de pássaros a tentar, em vão, me acordar todas as manhãs. Ainda no inverno, somente dois casais de ariscos sabiás-laranjeira e sanhaços-cinzentos se arriscavam a pousar sobre o gramado povoado de gatos. Aos poucos, vieram outros. Uma palmeira de coquinhos-amarelos já exibia um frondoso cacho, que um grupo de estridentes maritacas tratou de devorar - não sem uma festa sonora que acompanhou minhas leituras, escritas e ócios.

Com a primavera vieram também os dias quentes e as refrescantes chuvas de fim de tarde. O som dos pássaros, o verde da primavera, o cheiro de terra molhada de um fim de tarde, seguido de uma noite fresca e agradável... foi como ser jogado muitos anos atrás, em um tempo de quase ingenuidade.

Até os 15 anos de idade, morava em uma casa ladeada por um quintal à moda antiga. Um coqueiro jovem, mas crescido, fazia sempre a nossa alegria em tempos quentes. O chão era de terra e, de tempos em tempos, era preciso fazer uma limpeza geral do mato que crescia. Encostado ao muro crescia um espinhoso pé de jurubebas, até o cheiro era amargo. Ao fundo, próximo à janela de meu quarto, minha mãe fez uma pequena horta - eu me deliciava com os tomates, que muitas vezes sumiam antes de estarem totalmente maduros.

O canto de pequenos pássaros era comum em minha janela, mas eu mal os dispensava atenção, mesmo acordando muito cedo para cumprir minhas obrigações escolares. Por um tempo mantive em cativeiro algumas espécies de aves, das quais minha preferida era a de periquitos - eu os achava belos, com suas penas azuis, verdes, amareladas, com o colarinho e a cabeça pintados em branco e preto. Tive de providenciar algumas solenidades fúnebres e conviver com a fuga de alguns deles, o que fez minha mãe me proibir de ter outro qualquer por um bom tempo, dada a tristeza que decorria desses casos.

Em uma dessas, fui tomado de verdadeira tristeza. Depois de periquitear algumas vezes e já não ter nenhum deles, armei um pequeno alçapão por entre os canteiros da horta, onde tantos passarinhos vinham me visitar todos os dias. Ficava sempre da janela do quarto, esperando que algum incauto se tornasse meu próximo xodó. Após alguns dias de dedicação, eis que o incauto se apresenta. Minha felicidade foi tão grande, que após apresentar-lhe sua nova casinha (uma gaiola de porte médio, cuidadosamente limpa para esse momento), tratei de sair para providenciar o que seria sua comida a partir daquele dia. Voltei, deixei tudo em perfeito estado.

A alegria era tamanha que tratei de contar a todos que estavam em casa, com um certo ar de orgulho. Entre os ouvintes estava um tio gaiato, homem criado na roça, que deu um sorriso largo e foi até o quarto dos fundos, onde eu havia deixado a gaiola. Ao chegar mudou de expressão e me disse: esse pequenino do bico fino é um corruíra; é melhor você soltar, esse passarinho não se cria preso, ele adoece e morre!

No dia seguinte acordei esfuziante. Passei direto pela mesa do café e fui direto ver meu novo amiguinho... depois desse dia minha mãe proibiu em definitivo que eu comprasse ou aceitasse qualquer outro pássaro. Alguns anos depois eu já havia esquecido a lição e voltei a criar um periquito, que também fugiu. Hoje eu olho para os sabiás, os sanhaços, as maritacas, os pardais e tantos outros ariscos visitantes do Butantã e me lembro de como eu já tinha todos aqueles pequenos corruíras, sem que precisasse trancá-los em uma gaiola, longe de seus verdadeiros companheiros.

Se naquela época eu soubesse o quanto preciso de asas, jamais o teria feito...

2 comentários:

  1. ahahaha! primeiro comentário meu (ou não?)

    como eu disse... não esperava ler algo tão sentimental/melancólico/nostálgico...acho que é a impressão que vc me causa quando me xinga demais :x hihihi

    amei o texto! ^^

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  2. "postagens autobiográficas são sempre tão cheias de sensibilidade..."

    descobri um exímio conhecedor de aves, oh!
    muito legal o texto, bem escrito.. acompanhado de uma melancolia boa.

    o galeano iria gostar
    =D

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